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Maris: uma tecnologia social do Ifal que une a pesca artesanal, pesquisa científica e propostas de políticas públicas
Sob a orientação da professora Jordana Rangely, estudantes do curso de Sistema de Informação do Ifal Maceió constroem ferramenta digital e a aplicam junto às comunidades de pescadores e marisqueiras APA Costa dos Corais
Aplicativo utilizado junto às comunidades de pesca artesanal e marisqueiras da APA Costa dos Corais
O Instituto Federal de Alagoas (IFAL) desenvolve uma tecnologia social de baixo custo e alto impacto voltada ao fortalecimento da pesca artesanal e, especialmente, da atividade das marisqueiras. O Maris é um aplicativo construído a partir do diálogo com as comunidades e busca transformar informações do cotidiano da mariscagem em dados organizados, úteis tanto para as trabalhadoras e para a pesquisa científica quanto para a formulação de políticas públicas.
O projeto é orientado pela professora do Ifal - Campus Benedito Bentes, Jordana Rangely, doutora em Diversidade e Conservação nos Trópicos pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). A ferramenta digital foi desenvolvida com a participação dos estudantes do curso de Sistemas de Informação do Ifal - Campus Maceió, Kalline Freitas, Marina Paffer e Daniel Cortez.
Atualmente, o Maris também integra um projeto de extensão desenvolvido junto às comunidades de pescadores e marisqueiras da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (APA Costa dos Corais), localizada no litoral norte de Alagoas. A iniciativa faz parte dos objetivos estratégicos do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração da APA Costa dos Corais – PELD APACC e conta com a parceria da professora Nídia Fabré da Ufal e doutora em Ciências Biológicas pela Universidad Nacional de Mar del Plata, fortalecendo a integração entre pesquisa, extensão, tecnologia e conhecimento tradicional.

Da rotina da marisqueira ao dado organizado
A coordenadora do projeto, Jordana Rangelly explicou que um dos principais objetivos do Maris é facilitar o registro das
atividades realizadas pelas próprias marisqueiras. “Pelo aplicativo, elas poderão registrar informações sobre os dias em que foram ao ambiente de coleta, os locais utilizados, as espécies capturadas, a quantidade coletada, o esforço empregado na atividade e outras informações relacionadas ao seu trabalho”, ressaltou a docente.
Ao longo do tempo, esses registros passam a constituir um histórico da atividade de cada trabalhadora.
A partir dessas informações, o aplicativo organiza os dados e gera relatórios de atividade, permitindo que a marisqueira acompanhe melhor sua própria produção e mantenha um registro organizado dos dias trabalhados e das atividades desenvolvidas. Esses dados poderão auxiliar na organização de informações necessárias aos processos relacionados ao Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e a outros mecanismos oficiais de comprovação da atividade pesqueira, conforme as exigências dos órgãos responsáveis.
O Maris não substitui os sistemas governamentais nem garante, por si só, o acesso a benefícios. A função da tecnologia é contribuir para que as informações produzidas,diariamente, pelas próprias marisqueiras estejam registradas, organizadas e disponíveis para utilização quando necessárias.
Informação para melhorar a gestão do próprio trabalho
Além do registro da atividade pesqueira, o Maris pretende contribuir para uma melhor compreensão da produção e da renda associadas à mariscagem.
Ao registrar quanto coletou, quando trabalhou e outras informações relacionadas à atividade, a profissional da atividade pesqueira poderá visualizar, com maior clareza, sua rotina produtiva e, progressivamente, utilizar essas informações para apoiar o planejamento e a gestão de seus recursos financeiros.
Para a equipe do projeto, essa dimensão é particularmente importante porque grande parte do trabalho realizado pelas mulheres na pesca artesanal permanece pouco documentada. Registrar essa atividade significa também contribuir para torná-la mais visível.
Dados que também ajudam a conhecer e proteger o território
Os benefícios do Maris ultrapassam o acompanhamento individual das atividades das marisqueiras. Os registros,
quando analisados de forma agregada e seguindo os cuidados éticos necessários, também poderão gerar informações importantes para pesquisadores do Instituto Federal de Alagoas, da Universidade Federal de Alagoas e demais instituições parceiras.
A continuidade desses registros permitirá ampliar o conhecimento sobre a fauna, a biodiversidade, a distribuição das espécies, os locais de coleta e a dinâmica dos territórios pesqueiros.
Com o passar dos anos, essa base de informações poderá assumir outra função estratégica: constituir uma linha de base histórica sobre os ambientes e as atividades pesqueiras.
“Em situações de derramamento de óleo, contaminação, eventos climáticos extremos, redução de determinadas espécies ou outras alterações ambientais, por exemplo, será possível comparar o cenário observado naquele momento com os dados registrados anteriormente. Esse histórico pode contribuir para compreender a dimensão dos impactos ambientais e sociais e oferecer evidências para a tomada de decisões”, afirmou a professora Jordana Rangelly.
Ciência construída com as comunidades
A proposta do Maris parte do princípio de que a produção do conhecimento não deve acontecer apenas dentro das instituições de ensino e pesquisa. Por isso, a tecnologia vem sendo construída e aperfeiçoada em diálogo com pescadores e marisqueiras, considerando as necessidades apresentadas pelas próprias comunidades.
Ao mesmo tempo em que os conhecimentos tradicionais contribuem para compreender os territórios e aperfeiçoar a ferramenta, a Ufal e o Ifal colaboram com métodos científicos, tecnologia e organização dos dados.
Essa integração permite produzir informações que podem subsidiar pesquisas científicas, ações de conservação da biodiversidade, planejamento territorial e formulação de políticas públicas mais conectadas à realidade das comunidades pesqueiras.
Para a coordenadora do projeto, o desenvolvimento do Maris representa a materialização de uma trajetória de pesquisa e trabalho junto às comunidades pesqueiras, especialmente às mulheres que, historicamente, desempenham um papel fundamental na pesca artesanal, mas que nem sempre aparecem nas estatísticas oficiais.
“Assim, o Maris busca unir tecnologia, ciência, conhecimento tradicional e extensão para transformar registros cotidianos em informação, ampliar a visibilidade da mariscagem e contribuir para que pescadores, marisqueiras, pesquisadores e gestores públicos conheçam melhor os territórios e possam tomar decisões baseadas em dados”, enfatizou a coordenadora do projeto.