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Em visita à Ilha do Ferro, grupo do Ifal Penedo encontra arte, memória e ancestralidade
Às margens do Velho Chico, onde a madeira se transforma em arte e a ancestralidade se expressa no cotidiano da comunidade, estudantes e servidores do Instituto Federal de Alagoas – Campus Penedo participaram de uma visita técnica ao povoado Ilha do Ferro, localizado no município de Pão de Açúcar, no Sertão alagoano. Promovida pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) no dia 15 deste mês, a viagem marcou o encerramento das ações desenvolvidas pelo núcleo ao longo de 2025, voltadas ao reconhecimento de saberes e territórios tradicionais alagoanos.
A atividade reuniu um grupo de 11 estudantes e nove servidores do Ifal Penedo, a maioria docente de diferentes áreas do conhecimento. Segundo explicou o coordenador do Neabi, Marcos Paixão, a iniciativa buscou ampliar o contato da comunidade acadêmica com territórios e saberes tradicionais, fortalecendo a formação por meio de experiências educativas para além da sala de aula.
A Ilha do Ferro é reconhecida nacional e internacionalmente por seu artesanato, especialmente o trabalho em madeira, marcado pela relação com a natureza, pela estética ligada à ancestralidade e pela valorização da coletividade. Esses elementos se refletem também nas práticas comunitárias e no modo de vida local, fortemente conectado ao rio. O povoado também preserva o bordado Meia-Noite, expressão cultural singular que carrega símbolos, narrativas e referências da memória local.
Durante a visita, estudantes e servidores participaram de uma oficina com o artesão Petrônio, referência na região, e puderam colocar a mão na massa, ou melhor, na madeira, para ter uma noção do processo artesanal que envolve esse tipo de peça. Na ocasião, ele compartilhou vivências, técnicas e reflexões sobre a arte como expressão cultural, identidade e resistência.
O grupo também visitou o Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos, museu dedicado à preservação e valorização da produção artística e da memória cultural da comunidade ribeirinha. Mantido pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), o espaço reúne esculturas em madeira, móveis artesanais, bonecas e bordados tradicionais, como o Meia-Noite. O espaço homenageia o Mestre Fernando, referência fundamental para o reconhecimento da Ilha do Ferro no cenário da arte popular brasileira.

Pesquisa e vivência no território
Na pausa para o almoço, os estudantes socializaram os resultados da atividade pedagógica proposta pelo Neabi, que articulou pesquisa prévia e observação in loco como estratégia de aprendizagem. Cada dupla ficou responsável por um dos seis temas definidos, abordando desde a origem do nome Ilha do Ferro e a história de formação da comunidade até os aspectos geográficos do Sertão alagoano e sua relação com o Rio São Francisco.
Também foram discutidos os motivos que projetaram a localidade nacionalmente, com destaque para a arte popular, além de reflexões críticas sobre os impactos negativos do turismo e a necessidade de medidas para preservar a identidade cultural e os modos de vida locais.
Para a estudante Iannara Costa, monitora do Neabi, a experiência contribuiu para aprofundar o entendimento sobre as identidades afro-indígenas em Alagoas. “O mais interessante dessas viagens foi a gente conseguir conhecer a cultura do nosso estado. Todas as visitas técnicas desse ano ocorreram no território alagoano, valorizando muito a cultura e a história local”, destacou a aluna, referindo-se as idas ao Povoado Ponta Mofina, em Penedo, à Serra da Barriga, em União dos Palmares e à Ilha do Ferro, em Pão de Açúcar.
Quanto a essa última visita, a jovem considerou interessante a parte da pesquisa sobre o nome do lugar. “Nosso grupo ficou responsável por explicar a origem da denominação Ilha do Ferro e, apesar do nome, descobrimos que não se trata de uma ilha. O curioso é que muitas pessoas que participaram da viagem acreditavam que realmente fosse uma ilha e só perceberam o contrário quando chegamos ao local. Para mim, isso já era óbvio, mas foi interessante poder explicar aos colegas, compartilhar o que havíamos pesquisado e ver como esse conhecimento fez diferença durante a visita”, relatou.
O estudante Vinícius Santos, também monitor do Neabi, reforçou a importância das vivências promovidas pelo núcleo ao longo do ano, que permitiram a troca de saberes realizada nos próprios espaços de cada comunidade. “Na Ilha do Ferro, acho que o ponto principal que eu pesquisei e que pôde ser compreendido na prática é sobre as obras, os artesanatos feitos no povoado. A gente viu que essa produção é realmente muito valorizada. Toda casa, todo canto que a gente ia era um ateliê”, comentou.