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Abril Indígena no Ifal Penedo: entre memórias, resistência e o direito de existir

Evento promovido pelo Neabi aproximou estudantes das histórias e desafios dos povos indígenas que vivem em Penedo
por Lidiane Neves publicado: 13/05/2026 13h54, última modificação: 25/05/2026 19h02

No Instituto Federal de Alagoas – Campus Penedo, o Abril Indígena foi celebrado não apenas como uma atividade de calendário, mas como um exercício de escuta. Entre rodas de conversa, apresentações culturais, pinturas corporais e artesanato, vozes historicamente silenciadas ocuparam o centro da área de convivência para lembrar algo muitas vezes esquecido: os povos indígenas não pertencem ao passado. Eles resistem, vivem e lutam no presente. Presença essa que também existe em Penedo.

Com o tema “Territórios indígenas em Penedo: cultura e resistência em defesa da ancestralidade”, a programação organizada pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), no último dia 29 de abril, aproximou estudantes das trajetórias do povo Pankararu e Xucuru-Kariri residente no município, especialmente da comunidade conhecida como Aldeia Luzia.

 Ao longo do dia, os alunos ouviram relatos sobre território, preconceito, espiritualidade e sobrevivência. Mais do que apresentar tradições, o encontro abriu espaço para discutir os desafios enfrentados pelos indígenas em Penedo, desafios estes que vão da luta pela terra ao preconceito cotidiano.

Luta que atravessa gerações

Nas rodas de conversa mediadas pela professora de História, Gisele Lima, os debates partiram de um entendimento comum entre o Pajé Tucunaré e seu parente Folha Nim: para os povos indígenas, a terra não representa apenas um lugar de moradia.

“A luta pela terra é a alma dos indígenas”, destacou a docente ao explicar que o território está ligado à espiritualidade, à produção de alimento, aos ritos e à continuidade dos saberes ancestrais. “A mãe terra acolhe e tudo dá, desde o alimento encontrado no supermercado até o remédio na farmácia”, refletiu Gisele, ao defender a necessidade de compreender outras formas de relação com a natureza.

Foi nesse contexto que o Pajé Tucunaré compartilhou parte da história de sua família, marcada por deslocamentos forçados e resistência cultural. Ele explicou porque a comunidade carrega duas etnias. Segundo o líder indígena, Pankararu foi herdada da sua avó e Xucuru-Kariri está ligada às gerações mais jovens.

 Na ocasião, o pajé contou que a matriarca deixou o Sertão de Pernambuco em um período de perseguição, quando muitos indígenas escondiam a própria identidade por medo. Depois, seguiu para Palmeira dos Índios, em Alagoas, onde manteve viva sua cultura e espiritualidade, apesar dos conflitos vividos.

“O sofrimento que ela passou não queria que a gente passasse, e infelizmente estamos passando”, relatou Tucunaré. Entre os ensinamentos deixados por sua avó, um segue orientando a comunidade até hoje. “Tínhamos dois caminhos: e conformar ou lutar”. Segundo ele, a luta por território não está ligada apenas à posse da terra, mas à possibilidade de preservar tradições e garantir a continuidade cultural.

Aldeia Luzia e a luta por território

As discussões do evento também chamaram atenção para um aspecto pouco conhecido por muitos estudantes: a presença indígena no município. De acordo com Folha Nim, integrante da comunidade, as 18 famílias que compõem a Aldeia Luzia já chegaram a viver em uma vila alugada na área urbana de Penedo, depois ocuparam uma área no Balneário Santa Amélia e na APA Marituba do Peixe, até chegarem ao local onde estão atualmente: uma área federal da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).

A situação, porém, é provisória. Segundo o Pajé Tucunaré, o terreno atual apresenta limitações que dificultam a subsistência da comunidade. “Como a terra é areada, não dá para plantar nem macaxeira. Não temos acesso ao que a mãe terra dá”, explicou. Hoje, os 54 indígenas que integram a comunidade sobrevivem principalmente do Bolsa Família, da venda de artesanato e de doações de cestas básicas. O Neabi aproveitou inclusive o evento para arrecadação de alimentos não perecíveis, e a campanha teve continuidade envolvendo a equipe do Grêmio Estudantil.

 Enquanto aguardam uma solução judicial para a questão territorial, o pajé reforçou que a comunidade busca conduzir a luta dentro dos caminhos legais. “Queremos agir dentro das leis, não cometer o que o colonizador fez com a gente”, afirmou, referindo-se ao processo que dizimou os povos originários do Brasil e que continua reverberando hoje na negação de direitos básicos aos indígenas.

Além da questão territorial, as rodas de conversa abordaram episódios de racismo enfrentados pelos indígenas em Penedo, especialmente pelas crianças da comunidade. Segundo os convidados, comentários sobre cabelo, cor da pele e aparência fazem parte de situações vividas diariamente.

Para a professora Gisele Lima, esses episódios estão relacionados ao desconhecimento sobre a própria história local e à invisibilização da presença indígena. “A expulsão da avó do território em Pernambuco não é apenas uma realidade dela, mas de todos os povos indígenas”, afirmou, ressaltando a importância de ouvir narrativas que muitas vezes não aparecem nos grandes meios de comunicação.

A docente também chamou atenção para os vestígios da presença indígena na região, perceptíveis inclusive nos nomes de localidades como Toca do Índio, Caeté, Piaçabuçu, Sapé e Pindorama.

Ao refletir sobre os desafios enfrentados pelos povos originários em Penedo, Gisele destacou que a luta pelo território se torna ainda mais complexa em cidades que não são reconhecidas como áreas tradicionalmente indígenas. “Quando dizem: ‘voltem para o lugar de vocês’, a pergunta é: qual lugar? Se não há território indígena em Penedo, é porque esses povos foram dizimados”, observou.

Do debate à sala de aula

Durante a programação, o Abril Indígena também foi integrado aos conteúdos trabalhados em sala de aula. O professor de Política Pública e Legislação Ambiental nas turmas de 2º ano do curso técnico em Meio Ambiente, Pablo Pinheiro, aproveitou o evento para aproximar os assuntos estudados na disciplina da realidade debatida no campus.

 A proposta dialogou diretamente com o artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que reconhece aos povos indígenas sua organização social, costumes, línguas, crenças, tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, atribuindo ao Estado a responsabilidade de protegê-los e garantir o respeito aos seus bens.

“Estamos estudando a Constituição, e a ideia foi a de que os alunos enxergassem a função do técnico ambiental na implantação do Decreto nº 7.747, de junho de 2012”, explicou o docente, referindo-se ao normativo que institui a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas, criada para garantir a proteção, recuperação, conservação e uso sustentável dos recursos naturais em territórios indígenas, respeitando a autonomia e os modos de vida dessas populações.

Divididos em grupos, os estudantes foram desafiados a pensar, a partir da futura atuação profissional, como poderiam contribuir para as diretrizes da política pública. Entre elas, estão a proteção territorial e dos recursos naturais, a promoção do uso sustentável da biodiversidade, a prevenção de conflitos ambientais, a melhoria da qualidade de vida nas comunidades indígenas, o fortalecimento da participação social e a valorização dos conhecimentos e práticas tradicionais.

Segundo Pablo Pinheiro, a atividade buscou mostrar aos estudantes que a formação técnica em Meio Ambiente também envolve compreender o papel das políticas públicas e sua aplicação em contextos reais. Ao relacionar legislação, território e direitos indígenas, a proposta ampliou as discussões do Abril Indígena para além do momento do evento.

Um abril que deve se estender pelo ano

 Para o coordenador do Neabi, Juliano Mota, o Abril Indígena representa um momento importante de mobilização, mas a discussão precisa permanecer presente ao longo de todo o ano letivo. “O Abril Indígena é só um marco, mas o ano inteiro é indígena”, afirmou.

Segundo ele, a programação alcançou adesão integral das turmas pela manhã e quase total no período vespertino, resultado do envolvimento coletivo da comunidade acadêmica e do protagonismo estudantil na construção das atividades. “A razão de ser do Ifal são os estudantes. Esse êxito só é possível quando a coletividade entra em cena”, destacou.

O docente também enfatizou a importância de ampliar, ao longo do ano, as ações desenvolvidas pelos núcleos, grupos de estudo e projetos do campus voltados à temática indígena, fortalecendo uma educação “transformadora, democrática e plural”.