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Sete egressos/as da área de Letras do Ifal Arapiraca são aprovados/as em programas de mestrado e doutorado

Licenciados/as enfrentaram incertezas, lutos e outros desafios até obter a conquista

por Roberta Rocha publicado: 02/02/2024 16h04, última modificação: 02/02/2024 17h07

Desde que os programas de pós-graduação começaram a divulgar os resultados das seleções para ingresso no ano letivo 2024, egressos/as da licenciatura em Letras/Português e da pós-graduação em Linguagem e Práticas Sociais do Instituto Federal de Alagoas - Ifal Campus Arapiraca têm recebido boas notícias. No total, foram sete aprovados/as em programas de mestrado e doutorado nos estados de Alagoas e Sergipe.

Além de ser indicativo da qualidade de ensino do curso avaliado com nota máxima pelo Ministério da Educação, o resultado impressiona pelo contexto de adversidades enfrentadas por cada licenciado/a ao longo da trajetória acadêmica. Entre os/as aprovados/as, há filhos/as de agricultores/as que foram dos/as primeiros/as da família a ingressar no ensino superior, há os/as que estudaram a vida inteira em escola pública e há ainda quem conseguiu dupla aprovação em pós-graduações stricto sensu, por exemplo.  

Conheça essas histórias que reúnem empenho pessoal, orientação acadêmica adequada e os aprendizados adquiridos com pesquisa científica no Ifal Arapiraca: 

Da comunidade quilombola ao mestrado

José Raimundo Pereira apresenta trabalho no Encontro Nacional de Linguística Aplicada, na UfalJosé Raimundo Pereira, egresso do curso técnico de Informática do campus e aluno da especialização em Linguagem e Práticas Sociais, foi aprovado para o mestrado na Universidade Federal de Sergipe - UFS, na linha de Linguística Aplicada. Ele não esconde a empolgação com o feito. 

Oriundo de uma família numerosa, onde a agricultura era a principal fonte de renda, o estudante completou o nível fundamental nas instituições escolares da Vila Pau d'Arco, comunidade quilombola situada em Arapiraca. Depois, ingressou no Ifal e concluiu o ensino médio.

"Eu sou o 10⁰ filho e o mais novo. Para meus outros irmãos, foi uma jornada árdua de acesso à educação de nível médio, pelas necessidades que meu pai tinha deles na roça. Já eu, criado em um período diferente deles e levando em consideração as melhores condições do meu pai para contratar ajudantes, segui nos meus estudos como forma de ter outra forma de sustento". 

De acordo com ele, a vocação do Campus Arapiraca para ações extensionistas e pesquisas despertaram sua vontade de fazer parte daquele universo. "Iniciei projetos de extensão a partir de observações e pesquisas que identificaram deficiências significativas na Vila Pau d'Arco; levando para essa comunidade dois cursos voltados ao ensino de informática e de inglês. A partir do curso de extensão de inglês, eu me aproximei da docência e foi uma experiência que eu gostei de ter", conta.

Após cursar Letras/Inglês na Universidade Estadual de Alagoas - Uneal, o estudante começou a especialização do Ifal. "Minhas perspectivas acadêmicas foram chacoalhadas. Eu pude rever e estudar melhor sobre processos educacionais, análise do discurso e, principalmente, sobre a linguística aplicada e a sociolinguística por um viés diferente daqueles já vistos: uma perspectiva mais social e que fugia da visão dos estudos unicamente voltados ao ensino de língua e sala de aula", define.

Conforme seu relato, os novos aprendizados surgiram por meio dos textos lidos e das aulas reflexivas do professor Danillo Silva, seu orientador do artigo de conclusão de curso. "Fizeram rever meus estudos acerca da linguagem, minha prática docente e, principalmente, como eu poderia pesquisar de maneira mais significativa a comunidade a qual eu pertenço. A partir disso, tenho desenvolvido estudos voltados à compreensão das relações entre identidade, cultura e (de)colonialidade no campo da educação linguística em língua inglesa".

Analisar a dinâmica entre educação linguística e cidadania foi o ponto de partida para o desenvolvimento do projeto de pesquisa que garantiu o bom resultado no mestrado. "A aprovação me revela o poder transformador da educação em minha vida e uma transgressão pessoal, profissional e acadêmica, já que a academia é um lugar de difícil acesso, principalmente para jovens advindos/as de comunidades rurais. Pretendo fazer uma pesquisa belíssima que valorize a minha comunidade e que venha a trazer bons frutos", resume José Raimundo.

 Apoio ao sonho

Silene Almeida participou de projetos de pesquisa e extensão em sua graduação no campusAprovada para o mestrado da Universidade Federal de Alagoas - Ufal na linha de Linguística Aplicada, Silene de Almeida colou grau na licenciatura em Letras/Português do Ifal Arapiraca no último mês de dezembro. A recém-graduada também tem pais agricultores que, segundo ela, não tiveram acesso ao ensino regular, mas a incentivavam a prosseguir nos estudos. O mesmo encorajamento veio de professores/as com os quais lidou na vida acadêmica. 

"Estudei a vida toda em escola pública, sempre tive muito incentivo de todos os professores que passaram em minha vida. Por isso, decidi que queria seguir a profissão. Mas esse desejo surgiu quando eu ainda era criança. Na adolescência, eu encontrei uma carta que havia escrito para o 'Eu do futuro'. Nela, eu já expressava o meu desejo de ser professora e o Ifal possibilitou esse sonho", relata.

Ao ingressar na graduação, a estudante precisou conciliar as aulas com o ensino médio que ainda cursava, por razões de atraso no calendário da escola em questão. Além disso, enfrentou a perda da avó logo nos primeiros meses de curso e a suspensão das aulas presenciais por conta da pandemia. Tudo isso despertou nela a vontade de desistir. "Mas a forma como os professores se importavam, e mostravam que estavam sempre ali, fez com que eu continuasse no curso", afirma.

Durante a licenciatura, Silene atuou como bolsista do Programa de Residência Pedagógica e como voluntária no de Iniciação Científica, e participou também de projetos de extensão, revisando os assuntos do Enem com estudantes do ensino médio ou corrigindo redações. 

A decisão de concorrer no processo seletivo para o mestrado, de acordo com ela, foi de última hora. "Eu não ia fazer, não estava nem ligada em edital, porque [a seleção] estava acontecendo enquanto eu estava fazendo o meu TCC. Quando o prazo estava esgotando, aí o Danillo, meu orientador, ligou para mim, numa sexta-feira à noite, e disse: 'Silene, eu estou vendo muito potencial na sua pesquisa e eu queria que a gente fizesse um projeto para você se inscrever no mestrado'. Fiquei insegura, no início, mas disse 'bora'". Com a aprovação, a futura mestranda pretende estudar o tema Materialização discursiva da violência de gênero em notícias jornalísticas: como a mídia narra feminicídios.

Dedicação Recompensada

Outro nome presente na lista de aprovados/as no mestrado em Letras da Ufal é o de Maria Jussara da Silva, egressa da graduação em Letras/Português e atual aluna da pós-graduação em Linguagem e Práticas Sociais do campus. "Sempre estudei em escola pública e, da minha família, apenas eu tive a oportunidade de ingressar na universidade e concluir. É motivo de superação pessoal, é um efeito social muito simbólico", ressalta.

Na graduação, a estudante participou de projetos de iniciação científica, onde teve o primeiro contato com a pesquisa acadêmica e a oportunidade de participar de eventos nacionais. "Pude identificar, nesse espaço acadêmico, uma nova forma de compreender e contribuir com o modelo de educação que acredito". 

Jussara agora tem planos de potencializar os estudos raciais críticos, na perspectiva da Linguística Aplicada, em favor do empoderamento negro em uma comunidade de Arapiraca e se diz grata ao incentivo recebido dos/as professores/as e colegas de turma. "[Eles/elas] foram essenciais durante este processo, em especial, o professor Danillo Silva, que me auxiliou durante a construção do meu pré-projeto de pesquisa e vibrou comigo em todas as etapas".

Luto e superação

O egresso da licenciatura em Letras/Português do Ifal Arapiraca (modalidade EaD) e concluinte da especialização em Linguagem e Práticas Sociais, Fábio Antônio Ferreira, é mais um destaque na seleção do mestrado da Ufal. Ao ter a notícia da aprovação, ele afirma ter passado um filme na sua cabeça, desde a infância, quando desenvolveu o gosto pela leitura por influência de sua mãe, até o desafio que precisou enfrentar na graduação, com a perda dela.

"Foi ela [mãe] que me apresentou o alfabeto, que me ensinou a ler. Tanto meu pai quanto minha mãe não chegaram nem a concluir o primário. Eu lembro que ela comprava pra mim os livrinhos de fábula e lia pra mim e eu ficava encantado com aquelas histórias de animais com características humanas". 

Com a morte da genitora quando cursava o 7º período do curso, Fábio entrou em estado de depressão profunda. "Eu tive o apoio dos colegas de turma e dos professores. Estava prestes a desistir do meu sonho de me tornar um professor-pesquisador na área da Língua e os colegas e professores diziam: 'Não desista, nós estamos aqui com você! Foque nos seus objetivos, vamos terminar! Sua mãe lá de cima vai estar com muito orgulho de você!'. Aquilo marcou a minha vida. Mesmo com aquela dor, eu concluí. Eu fui a primeira pessoa da minha família a conquistar o nível superior", relata.

"Eu sempre estudei em escola pública, então a escola pública me transformou. E o Ifal colaborou significativamente pra essa construção. Porque eu cursei a minha graduação e estou finalizando a minha pós-graduação pelo Ifal", ressalta Fábio Antônio.

A participação em projetos de pesquisa foi outro estímulo para completar com êxito a jornada acadêmica. Na graduação, como voluntário, Fábio atuou em duas iniciativas. "Desenvolvi com o professor Cristiano Lessa de Oliveira, que atualmente é do Campus Satuba, um projeto com o objetivo de levar os alunos a compreender a língua numa perspectiva mais reflexiva, fazendo com que desenvolvessem sua competência comunicativa. Desenvolvi um outro projeto com a temática Gêneros orais trabalhados em sala de aula de Língua Portuguesa. Também proporcionou grandes conhecimentos", descreve.

Para o mestrado, o estudante planeja analisar o uso dos modalizadores discursivos como técnicas argumentativas em audiências judiciais, observando como os advogados de acusação e de defesa utilizam a língua para persuadir juiz e auditório. A expectativa do discente é levar a carreira acadêmica adiante, com um doutorado, e realizar o sonho de ser professor do Ifal um dia. 

"Porque o Ifal me fez, ele me construiu enquanto pesquisador. É uma instituição muito acolhedora, onde as coisas são levadas a sério, onde temos professores que querem ver o crescimento de seus alunos. O incentivo, o apoio, a amizade que a gente foi construindo ao longo desses anos, não consigo descrever com palavras o tamanho da minha gratidão", resume. 

 Divisor de águas

José Raimundo Pereira e Beatriz Rodrigues em reunião de orientação com o docente Danillo Silva

Uma das alunas da pós em Linguagem e  Práticas Sociais que também está comemorando o ingresso no mestrado da Ufal é a Beatriz Rodrigues. Ela deu um relato detalhado de toda a sua trajetória acadêmica, contando como foi a decisão pela área de Letras, a experiência estudando no Ifal e os preparativos para a seleção da Ufal.

"Aos 17 anos, eu era a única da turma que não sabia o que fazer da vida. Era ano de Enem e eu não fazia ideia,. Eu era muito boa com produção de texto e com apresentação de trabalhos, então os professores me incentivavam a ser psicóloga ou jornalista. Mas apareceu uma oportunidade de trabalho e eu comecei a lecionar inglês pra crianças e aí me apaixonei pela área. Passei na Uneal (Letras - Inglês), concluí o curso lá. Passei no concurso do Estado. Quando eu tomei posse, senti necessidade de continuar estudando, porque você quer oferecer o melhor pros seus alunos. Então eu vi a pós-graduação como uma forma de melhorar minhas práticas docentes, principalmente no contexto de escola pública. Comecei a pós e me apaixonei demais. Costumo dizer que ela foi um divisor de águas na minha vida. Porque eu comecei a ver que mestrado era uma opção pra mim, antes eu não achava que seria possível. Eu me sentia muito inspirada pelos professores, eu tive contato com teorias que eu não conhecia. E é interessante ver o projeto que eu submeti à pós-graduação e ao mestrado, eu vejo o quanto eu consegui evoluir a minha escrita acadêmica. Eu sou muito grata. Existem muitos professores que marcaram minha vida, mas eu diria que professor Danillo e professor Wellington Barbosa foram meus apoiadores, eles falavam que que eu era capaz, que eu iria conseguir. Saiu a seleção de mestrado na época que meu avô adoeceu, então eu tive que terminar o projeto no leito do hospital, levava o computador e ficava lá. O professor Danillo tirou um domingo para corrigir, me ajudar no meu artigo, deu umas dicas. Eu fico muito feliz de ter dado certo. São essas dificuldades que fazem com que a gente tenha mais força". 

Dupla aprovação

Jaiane Karoline em palestra na área de formaçãoNa reta final da pós-graduação em Práticas e Linguagens Sociais, Jaiane de Oliveira foi aprovada em duas seleções, ambas na linha de Linguística Aplicada. Com o nome na lista dos mestrados em Letras da Universidade Federal de Alagoas - Ufal e da Universidade  Federal de Sergipe - UFS, a concluinte contou da sua identificação com literatura, gramática e escrita desde a infância e dos caminhos que tomou para atuar na área.

"Durante os anos escolares, comecei a desenvolver meu interesse pelos textos e por escrever ficções e redações. Quando foi chegada a hora de prestar o Enem, em 2012, inicialmente optei pelo curso de Biologia. Mas dois anos mais tarde, fiz outro vestibular e ingressei em Letras - Português pela Ufal. Fiz minha pesquisa em Literatura Africana e concluí a graduação".

Ao começar a lecionar na rede municipal de Arapiraca, a então licenciada ouviu falar da pós-graduação ofertada no Ifal Arapiraca e iniciou os estudos na instituição, inaugurando novos olhares em relação à própria formação. "Foi durante os estudos na pós que migrei para a área de Linguística Aplicada, sob a orientação do professor Danillo Silva. E foi no contato com o corpo docente da instituição que me espelhei para prosseguir em minha jornada acadêmica. Atualmente, me dedico à pesquisa de performatividade de raça nos atos de fala de membros/as de grupos sociais de Arapiraca e o desenvolvimento de Letramentos Antirracistas", explica.

"Minha inspiração vem das mulheres negras intelectuais, como Angela Davis, Cida Bento, Conceição Evaristo e tantas outras, que vieram antes de mim e as quais abriram as portas para que hoje eu possa estar estudando, pesquisando e atuando ativamente para a descolonização e o fim da desigualdade racial", emenda a discente. Com o grau de mestre, Jaiane será a pioneira da família a obter a titulação. "Estou muito animada para iniciar essa nova etapa da minha vida e sou muito grata a todo conhecimento e incentivo que tive dentro do Ifal".

Foco no doutorado

Entre os/as mencionados/as ex-alunos/as da pós em Linguagem e Práticas Sociais que iniciarão o ano em uma nova jornada acadêmica, Vitor Emmanuel Pinheiro é concluinte há mais tempo. Ele terminou a especialização em 2021, ingressou no mestrado em Letras na Universidade Federal de Pernambuco em seguida e acaba de ser aprovado no doutorado em Estudos Literários da UFS.

"Fiz a graduação na Uneal, mas realizei estágio de regência em turmas do primeiro ano de informática de 2019, no Ifal Arapiraca. Também estudei no Ifal em 2011. Não concluí o técnico, mas tive professores incríveis que carrego comigo até hoje. Hosana Borges foi minha professora de Português e uma das inspirações para ingressar no curso de Letras. Na especialização, fui orientado pelo professor Wellington Barbosa e fui aluno de professores como Adriana, Rosângela, Leandro, Sandra", lembra o discente.

"É engraçado que sempre acabo voltando para o Ifal Arapiraca, seja no ensino básico, como estagiário, ou como aluno da pós-graduação. Também organizei, junto ao professor Alisson Hudson, a III Semana de Letras do Ifal Arapiraca, em dezembro de 2023", aponta sobre suas vivências no campus.