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Jovens doutores do sertão relatam as oportunidades da formação em instituições públicas

por Jhonathan Pino - jornalista publicado: 31/03/2017 09h19 última modificação: 31/03/2017 14h41

Dando prosseguimento a Série “Jovens Doutores”, nesta sexta-feira, 31, teremos a oportunidade de conhecer um pouco sobre aqueles docentes que estão em início de carreira, nos campi do Instituto Federal de Alagoas (Ifal), localizados no sertão alagoano, Batalha e Santana do Ipanema. Os dois concentram sete professores com títulos de doutor, abaixo de 35 anos, como é o caso de Magno Abreu e Silvana Belém Avilar. Aqui, eles revelam como as instituições públicas de ensino foram responsáveis pela transformação de suas vidas.

Arapiraquense e com toda a sua formação em escolas públicas, Magno é professor do Campus Santana do Ipanema desde julho de 2014, quando conseguiu a redistribuição do Instituto Federal do Mato Grosso (IFMT). O professor lembra que foi nos chamados IFs que sua vida acadêmica e profissional tiveram início. Ao terminar o ensino médio, fui cursar o pós-médio, na escola agrotécnica, em Satuba [atual Campus Satuba]. Foi nesse momento que dei um rumo a minha vida e escolhi a profissão que queria seguir. No ano seguinte passei no vestibular e ingressei na Universidade Federal de Alagoas [Ufal], no curso de Agronomia. Sempre falo que a Escola Agrotécnica foi um divisor em minha vida, pois antes dela, eu não tinha perspectiva de crescimento”, relatou o docente.

Em 2013, Ainda no Campo Novo do Parecis, Mato Grosso, Magno foi homenageado por turma de Técnicos em Agropecuária.png

Ele destaca ainda que naquele campus, o contato com os mestres Ramildo, Arnaldo e Iêdo Teodoro foram determinantes para a sua carreira, já que em casa, a falta de contato de sua família com o ensino superior dificultaria a visualização do percurso que seria tomado por Magno. Seu pai, por exemplo, agricultor e moto taxista, não teria condições de arcar com a continuidade dos estudos do filho em outra cidade.

Mesmo com essa realidade, depois de galgar uma vaga em Satuba e entrar no curso de Agronomia da Ufal, Magno partiu em busca de bolsas de estudo na Universidade Estadual Paulista (Unesp). Lá fez o mestrado e doutorado, consecutivamente, entre os anos de 2008 e 2012. A formação lhe rendeu bons frutos e o inseriu no Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT), como docente do IFMT. Também abriu portas para sua volta à Alagoas, quando conseguiu a redistribuição, para aqui ofertar as disciplinas de Agricultura II e III, nos cursos técnicos integrado e subsequente do Campus Santana, onde leciona sobre as culturas da cana-de-açúcar, mandioca, milho, feijão e palma. 

Professora do Campus Batalha tem caminho similar

Essa identificação com os institutos federais também pode ser encontrada na trajetória de Silvana Belém. Natural de Petrolina, Pernambuco, foi no ensino federal que ela pôde dar seus primeiros passos na docência. Mas antes de chegar ao Campus Batalha, a servidora já havia passado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), como professora substituta, e pelo Instituto Federal do Piauí (IFPI), como efetiva, quando foi chamada para o Ifal, onde atua desde novembro de 2014.

Outra coisa em comum com o Magno é que Silvana fez pós-graduação e foi bolsista de instituições públicas de São Paulo. No caso dela, a instituição que a acolheu para o mestrado e doutorado foi a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Foi um grande desafio, não conhecia ninguém na cidade, no início foi difícil, mas depois consegui me adaptar  a Campinas, fiz boas amizades lá, cidade ótima para viver. Depois fiz seleção para o doutorado e fiquei por lá mais um tempo. Fui para o Sudeste, mas com planos de regressar ao Nordeste. Sabia que aqui era meu lugar, então já fui decidida que quando terminasse, regressaria”, lembrou. 
Formação em instituições públicas e experiência em laboratório do Embrapa abriram caminho de Silvana Belém para pós-graduação na  Unicamp.JPG

O tempo em que esteve em Campinas, Silvana pensava em contribuir com o desenvolvimento da região de origem. Em Petrolina, ela teve a oportunidade de fazer a graduação em duas instituições públicas, ao mesmo tempo: Ciências Biológicas, na Universidade Estadual de Pernambuco (UPE) e Tecnologia de Alimentos, no Instituto Federal do Sertão Pernambuco. Durante os cursos, ela ainda conseguiu estagiar no Laboratório de Análises Microbiológicas e Físico-químicas de Alimentos e Água, do Senai, dar aulas de química e biologia para alunos de ensino médio de uma escola particular e fazer iniciação científica, no laboratório de Tecnologia de Alimentos da Embrapa Semiárido.

A iniciação científica no Embrapa foi o que lhe abriu portas para pensar em uma pós-graduação. “Tinha o sonho de fazer pós-graduação na Unicamp, uma das faculdades referência na área de alimentos da América Latina. Então, nos últimos anos da faculdade eu comecei a me preparar para isso. Fiz iniciação científica, onde publicamos alguns trabalhos e no último ano comecei a estudar para prova de seleção do mestrado”, recorda Silvana.

Apesar do estresse que sentimos só em pensar nessa múltipla formação, a professora recomenda a maratona para seus alunos. “Conciliar dois cursos superiores é muito cansativo, no meu caso foi possível por se tratarem de áreas afins. Já gostava e tinha interesse pela área de alimentos e também já planejava me tornar docente, assim os dois cursos se complementaram. Se porventura algum aluno meu tivesse a mesma intenção, recomendaria, desde que se tratasse de áreas afins”, opinou.

Atuação em seus campi tem retorno social

Parte do conteúdo e experiências adquiridas ao longo da formação de Silvana está sendo repassado para os alunos nos cursos técnicos subsequente e médio integrado, em Agroindústria, do Campus Batalha. Ali a docente ministrou disciplinas como Tecnologia de bebidas, Tecnologia de frutas e hortaliças e Gestão de resíduos agroindustriais. No momento ela concilia seu tempo entre a disciplina de Princípios de tecnologia de alimentos e os projetos de pesquisa e extensão “Lançando tarrafas e pescando sonhos”, “Beneficiamento do umbu e sua importância no semiárido brasileiro”, além de “Potencial agroindustrial do tamarindo”. 
Magno Abreu busca incentivar entre seus alunos a transferência de tecnologia, por meio de projetos de extensão fomentados pelo Ifal.png

Para ela, as atividades de pesquisa, extensão e ensino devem ser indissociáveis. “A partir de pesquisas, temos mais  ferramentas para construção dos saberes, já nas atividades de extensão compartilhamos as descobertas com a sociedade. É gratificante contribuir com o desenvolvimento de uma região através do ensino, sinto isso nas atividades que conseguimos desenvolver dentro e fora do campus. A presença do IF no interior é muito importante, pois ela transforma a realidade de muitas pessoas da região. Percebemos isso quando olhamos para nossos alunos e quando vamos em comunidades circunvizinhas ministrar cursos e palestras”, argumenta.

Já Magno lembra que a realidade do Campus de Santana ainda deixa a desejar, mas isso não o impede de desenvolver atividades de sua pesquisa, na área de seletividade de moléculas de herbicidas, aplicados na cultura da mandioca, além dos trabalhos de extensão voltados para a transferência de tecnologia e convivência com o semiárido, como os projetos: “Produção e implantação de mudas de espécies nativas em áreas degradadas”; “Educação Orgânica” e “Extensão Rural: Convivendo com o semiárido”. 

Ele também faz comparações entre os IFs que tem trabalhado. Se no Mato Grosso, onde atuava, o Instituto ficava em um celeiro agrícola, possuía curso superior e tinha convênios com grandes empresas, em Alagoas, Magno percebeu que seu trabalho poderia gerar transformações na trajetória de vidas de seus alunos. “Cada instituição atende um público e tem uma realidade, estou feliz no Ifal e desenvolvo os meus projetos e aulas, posso aqui fazer um pouco pelos alunos daquilo que já foi feito um dia por minha pessoa, a essência do Ifal não é encontrada em lugar nenhum do mundo”. 

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