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Balaio de Artes: mescla cultural do Ifal Palmeira que desperta o interesse pelas Artes em toda a comunidade

por Monique de Sá publicado: 07/06/2018 09h07 última modificação: 14/06/2018 14h04

Teatro, música, dança e artes visuais. Que tal pegar essas quatro vertentes e colocar num grande cesto? Mais especificamente num balaio? Para a cultura nordestina o nome não seria mais propício: “Balaio de Artes”. Trata-se de um projeto vinculado a um programa institucional de extensão do Instituto Federal de Alagoas: o Artifal. Em Palmeira dos Índios, esta “mescla cultural” vem ganhando cada vez mais adeptos, através do trabalho desenvolvido pelo professor de Artes da instituição: Daniel Cavalcanti.

O projeto, que surgiu em 2017, traz quatro linguagens que conversam entre si, promovendo a realização de montagem de peças teatrais, aulas de música, minicursos, exposições, sala sonora e oficinas com as mais variadas atividades. Ações realizadas dentro e fora do campus, envolvendo toda a comunidade. Atualmente, Daniel conta com oito bolsistas, oriundos dos três cursos técnicos integrados: Eletrotécnica, Informática e Edificações. Cada um adquire/tem uma responsabilidade, a depender da área que mais se identifique na música ou no teatro, que vai desde o agendamento de oficinas e apresentações, até a publicização desses trabalhos nas redes sociais.

O maior desafio para o professor Daniel talvez não tenha sido o de implantar o Balaio de Artes, mas lidar com a forma de como ingressou na instituição, após a morte do também professor de Artes, Jorge Schutze. “Meu primeiro ano no Ifal (2016) não foi fácil! Com a segunda colocação no concurso de 2015 para professor do Instituto, fui chamado após a morte de Jorge. Ele era uma pessoa querida, um estupendo docente pelo qual tinha grande admiração. Sem dúvidas, foi um momento doloroso”, conta Daniel.

A dor era visível também para os alunos da casa. Jorge era idealizador do Expresso Musical e do Resenhação, outros projetos que envolviam Artes no campus. Marlos Gabriel da Cruz, 17 anos, do 3º ano do curso de Eletrotécnica é um dos pupilos de Jorge. O garoto conta que viu no professor, assim que entrou para o Ifal, seu primeiro amigo. Por julgar-se tímido, ele enxergou no teatro uma forma de melhorar sua forma de comunicação e envolvimento com as pessoas.

Quando entrei para o teatro foi mais pela figura de Jorge, do que pelo teatro em si. Quando ele morreu, eu já me encontrava afastado do projeto. Saber da sua morte foi pesado para todos. Não podíamos deixar passar aquele momento em branco. Foi quando resolvi voltar e encenei junto com um amigo o trecho de uma peça dirigida por ele”, conta Marlos.

Do falecimento de Jorge até a chegada de Daniel, o campus ficou com um grande hiato em sua área cultural. Os alunos tentaram dar continuidade às ações, mas sem sucesso. “Quando Daniel chegou, ele começou a organizar melhor o Resenhação, só que com as características dele. Houve uma liberdade para decidir quem permaneceria e quem sairia. Foi quando eu optei por ficar”, relata o aluno.

Daí em diante, o desafio para Daniel era fazer um projeto com seu perfil profissional e que enaltecesse as quatro vertentes artísticas, ressaltando sempre a Música, por se tratar de sua formação acadêmica. Assim, dentro do Balaio, surge também o “Para toda a Sexta”, em que são abertos durante os intervalos espaços para apresentações musicais, englobando tanto alunos quanto servidores e artistas locais. Para este ano, Daniel conta que as ações serão transferidas para as quartas-feiras, devido a um fluxo maior no campus. “Daremos a estrutura necessária para quem queira mostrar seus dotes artísticos. A ideia é trazer além de música, pequenas encenações teatrais, como esquetes”, diz.

Atualmente, o Balaio investe também nas chamadas experiências sonoras, realizadas às quartas e quintas no campus. O envolvimento dos alunos repercute até numa profissão almejada para o futuro. É o caso da bolsista, Diana Silva Santos, de 17 anos, curso de Edificações. Sua paixão pela música vem de berço, através de seu pai e de suas tias, que sempre foram ligados à primeira arte.

Sem dúvidas, esta foi uma das melhores oportunidades que tive no Ifal. As pessoas dizem para mim que eu canto bem, sem falar que eu adoro tocar violão. Meu pai toca e ele me influencia a todo instante. Nunca procurei um curso até porque não teria como pagar. Por esse motivo, achei mais viável aprender com o professor Daniel. Já sabia algumas notas, então fica um pouco mais fácil para aprender, mesmo com as minhas dificuldades. É uma experiência que está agregando muito, pois futuramente quero seguir nesta área”, relata Diana.

Ações extensionistas

Os trabalhos não param por aí, Daniel leva seus conhecimentos e toda sua arte para a comunidade externa. São cursos e oficinas, sempre objetivando o compartilhamento de saberes. Prova disso é que ano passado foram realizadas uma oficina de musicalização infantil para a Escola Municipal Oásis, experiências sonoras com alunos da Escola Estadual Almeida Cavalcanti, além de aulas de violão para estudantes da Escola Estadual Humberto Mendes.

Essas ações com o público externo são fundamentais para que se crie uma ponte entre o Instituto e a cidade de Palmeira dos Índios, principalmente por tratar-se de um local tão carente de oficinas e cursos voltados para as artes. É um objetivo para este ano o retorno da parceria feita com a escola Oásis, tendo o intuito de desenvolver a musicalização entre crianças de 09 a 13 anos que integram a instituição. Além disso, a ideia é continuar com a viabilização de minicursos e oficinas para estas comunidades”, salienta o docente.

A parte teatral do projeto também segue com suas ações. Na montagem da peça Terra Brasilis, a ideia foi fazer uma leitura bem-humorada e reflexiva sobre os acontecimentos políticos em 2016. Além dela, a Trupe do Balaio iniciou montagem da peça “Barnabrabo: mentiras e Valentinas nas noites do sertão”, escrita pelo professor de Matemática do campus, Alberto Heleno Rocha. O grupo ensaia às sextas-feiras (manhã) e aos sábados pela tarde. Caso algum aluno tenha interesse, Daniel informa que “o Balaio estará de portas abertas para recebê-los”.

Dança e experiências sonoras

O termo “Experiências Sonoras” desperta uma certa curiosidade em quem não é ligado à música. Na verdade, segundo Daniel, o termo remete a algo mais simples do que se poderia imaginar. “A princípio, pensei em montar um coral. Só que na cabeça dessa meninada a palavra coral soa muito careta. Então como sei que temos alunos que gostam de cantar e tocar instrumentos musicais, resolvi uni-los para que na prática pudéssemos estudar e executar o canto e esses instrumentos. O resultado é que todos participam de tudo”, justifica.

O grupo voltado à experiência sonora confunde-se com o surgimento do próprio Balaio. Formando em Música pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), é uma das vertentes que Daniel mais entende e se identifica. Atualmente, o trabalho realizado com os alunos é de formação de um grupo vocal e instrumental que interpreta músicas do cancioneiro popular e contemporâneas. Além disso, o docente insere, na prática, objetos que emitem sons sem notas musicais definidas ou ruídos, mas que, incorporados e adaptados a algumas músicas do repertório, transformam-se em sons musicais. “O nome experiência sonora vem a calhar, afinal vivemos num mundo totalmente sonoro. Não existe silêncio, o que existe são pausas de sons”, reflete.

O movimento corporal através da dança também foi executado no palco do auditório do campus. As ações, apesar de terem se restringido apenas ao ano passado, marcaram a realização de uma série de oficinas realizadas por gabaritados profissionais da área, como: Cleunis Brandão, Pâmela Lemos, Claudiana Alves, Jal Oliveira e Carleane Correia – todos convidados por Daniel.

A arte existe porque a vida não basta”

A célebre frase do poeta maranhense Ferreira Gullar traz à tona um dos combustíveis utilizados por Daniel para dar continuidade e sempre trazer novas ideias para o Balaio. A sensação de bem-estar trazida pelas artes acarreta qualidade de vida para quem nela se insere, o que garante o compromisso com a realidade social. Para Daniel, a arte humaniza, tornando pessoas melhores enquanto seres humanos.

A qualidade de vida através das artes é inegável. Por exemplo, para um aluno que está num período de provas, tenso e se depara com um colega cantando ou tocando, aquilo tende a se tornar um bálsamo. Construímos protagonistas de suas histórias diariamente através do Balaio. Eles (alunos) passam a se olhar diferente, ampliam seus laços, suas inter-relações, quebram os estranhamentos e aproximam-se ainda mais”, enaltece o docente.

Infância ligada à música

A história de Daniel confirma a tese de que não foi ele quem escolheu a música, mas a música que o escolheu. Desde o ventre da sua mãe ele esteve ligado às artes. Ela sempre cantava em casa e numa igreja da paróquia onde morava, já seu pai tocava instrumentos musicais. “As reuniões familiares eram cobertas de boas músicas cantadas e acompanhadas por gaita, violão, acordeão e outros instrumentos. Foi algo que marcou muito”, diz. Natural de São Paulo, aos 14 anos ele ganha seu primeiro violão e a partir de então iniciou seus primeiros estudos musicais. No final dos anos 90, ele passou a morar em Maceió, onde se graduou em Música-Licenciatura na Ufal, lecionou em algumas escolas da capital alagoana na rede pública e privada, bem como em São Paulo (2012 a 2013). Fez cursos ligados à Educação Musical e teve contato com verdadeiros mestres das Artes ao longo desse percurso.

Todos esses encontros, fluxos e conexões foram me aprimorando. Iniciei na docência por necessidade e foi uma adorável descoberta. Acabei me encontrando em sala de aula. Costumo dizer que seu eu pudesse eu moraria em uma. Ser professor é um sacerdócio. Algo que tem que ter cuidado, mas também que devemos nos entregar. É ter um olhar sobretudo holístico acerca dessa arte que é a de ensinar”, conclui Daniel.

*Fotos de Arquivo