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Cursos tecnológicos: o caminho mais prático para carreira acadêmica ou profissional

por Gerônimo Vicente - jornalista publicado: 12/05/2016 10h30 última modificação: 12/05/2016 10h33
Exibir carrossel de imagens Mariana Nobre e Priscilla dos Santos realizam análise do concreto  no laboratório do Campus Maceió

Mariana Nobre e Priscilla dos Santos realizam análise do concreto no laboratório do Campus Maceió

A arte e a elegância do Design de Interiores, a concepção de “mão na massa” da Construção de Edifícios, a hospitalidade e a gentileza da Hotelaria e do Turismo e a preocupação com o ecossistema da Gestão Ambiental são características que dão um tom diferente aos cursos tecnológicos do Ifal (Instituto Federal de Alagoas) em comparação às demais graduações que a instituição federal de ensino oferece (bacharelado, licenciaturas e educação a distância). Sao esses itens que provocam uma atração a mais para quem opta por essa modalidade de curso de nível superior que apresenta em seu perfil uma duração menor e uma área específica como se fosse a parte de um todo. Porém, a importância do ponto de vista de acesso ao mercado, à docência e à pesquisa quanto um bacharelado ou uma licenciatura é a mesma das outras graduações.

A reportagem da série “Primeiros Passos” escolheu dois dos oito cursos tecnológicos oferecidos pelo Ifal para que os alunos fizessem uma avaliação da grade curricular, das perspectivas de mercado, do período pós-conclusão e da importância dele para a formação profissional. Os cursos de graduação de tecnologia no Ifal são: Laticínios (Campus Satuba), Alimentos (Maceió), Gestão de Turismo (Maceió), Hoteleria (Maceió), Sistemas Elétricos (Palmeira dos Índios) Design de Interiores (Maceió) e Construção de Edifícios (Maceió). Esses dois últimos foram os escolhidos.

Os fatores para a opção por um curso superior de tecnologia do Ifal são vários e, entre eles, estão, o insucesso no processo seletivo em outra instituição pública para o curso superior da preferência do aluno, a desistência por desestímulo vocacional de cursos de bacharelado, a retomada à vida acadêmica e o empreendedorismo. Esses pontos foram identificados durante entrevistas por alunos dos dois cursos.

Uma das opções acima fez com que Verônica Savicis, 57 anos, do quarto período de Design de Interiores, aposentada de uma companhia aérea, voltasse à sala de aula de uma universidade, depois que assistiu a uma reportagem na TV Gazeta de Alagoas sobre design de interiores. Em 2013, Verônica se submeteu ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), inscreveu-se no Sisu (Sistema de Seleção Unificada) em 2014 e ingressou no segundo semestre do mesmo ano no Ifal.

-Tudo começou quando me aposentei e vim morar em Maceió há onze anos. Na época quis fazer uma reforma no meu apartamento, mas não sabia por onde começar, pois não tinha conhecimento sobre material de construção e outros itens necessários para mudar todo o ambiente”, explicou.

A aluna ressaltou que a escolha do curso não foi por uma necessidade de voltar a trabalhar, mas para ampliar conhecimentos. Segundo ela, gostou do curso e, atualmente, viu quanta coisas erradas faria no seu apartamento, caso primeiro não resolver se capacitar. “Os tamanhos dos móveis, por exemplos seria uma dessas coisas erradas. Hoje já faço algo com uma perspectiva diferente”, contou a aluna.

Casada e mãe de dois filhos que lhe incentivaram a voltar à universidade, Verônica Savicis pretende se inserir no mundo da pesquisa por intermédio de um curso de mestrado para se tornar empreendedora ou buscar a carreira acadêmica.

Moradora do povoado de Barra Nova, no município de Marechal Deodoro, a professora Ana Arlinda Bandeira, por sua vez, desistiu do magistério e o trocou pelo curso de Design de Interiores, a partir do momento em que se transformou em confeiteira na arte de fazer bolos decorados. “Minha perspectiva é que depois do curso possa fazer um paralelo entre o design e a confecção dos bolos que eu faço depois de adquiridos conhecimentos acadêmicos sobre o curso.

Arlinda Bandeira fez o Enem teve uma boa nota que poderia ser aproveitada em cursos da Universidade Federal de Alagoas, mas a distância da casa dela e a frustração em saber que o Jornalismo, o curso de sua preferência, não era mais valorizado pelo mercado, fizeram com que escolhesse o Campus Maceió para estudar.

- Gosto muito do curso de Design de Interiores porque “desestressa” a pessoa. Antes, eu sequer sabia o que era planta baixa, mas hoje, sei como se planeja um ambiente e a cada período eu me surpreendeu comigo mesma ao imaginar quanta coisa consegui fazer”, acrescentou

A estudante afirmou que morava em Penedo onde fez o Magistério, mas desistiu ao se deparar com os baixos salários e problemas na relação professores e alunos. “Hoje, imagino cada junção das áreas do design como material e iluminação e, de repente, você se depara com um boom de beleza. É muito gratificante. Na condição de profissional, imagino que o design de interiores ao chegar na casa de qualquer pessoa, começa a dar dica sobre o que mudaria no ambiente para que ele ficasse mais belo. Só esso fato é uma contribuição profissional incrível”, citou Arlinda Bandeira.

Design e móveis alternativos

Aos 12 anos, Érika Taline, hoje com 27, começou a ajudar o pai em uma marcenaria da família. Lá aprendeu a desenhar móveis e, pouco tempo depois, começou a projetar mobílias, a seu modo. Dessa aptidão surgiu o desejo de fazer Arquitetura, mas primeiro fez a opção por Pedagogia na Universidade Federal de Alagoas. Concluíu o curso e se submteu ao Enem pensando no curso Design de Interiores.

- Na sala de aula, ao contar minha história, o professor disse que tudo o que eu fazia antes na marcenaria era design de interiores e não arquitetura como eu imaginava, contou Érika.

No quarto período do curso, a pretensão de Érika Taline é realizar um estágio profissional para adquirir experiência na área, antes de entrar no mercado. “Em design de interiores, nós como estudantes, passamos a ver o ambiente com outros olhares. Por exemplo, dizemos que isso ergonomicamente não está certo. A gente olha um revestimento e lembra da forma em que foi planejado de forma inadequada”, citou.

A estudante espera se especializar em iluminação ou design de móveis alternativos (ecológicos) e já experimenta essa ação nos projetos desenvolvidos em sala de aula que, para ela, devem ser viáveis, alternativos e de bom gosto. “É bom ressaltar que tudo o que a gente projeta é pensando nas pessoas e para o bem das pessoas”, salientou.

Transferida de outra instituição de ensino superior, onde cursava Design de Interiores, a estudante Rosângela Rosalina, 31 anos sentiu uma extrema diferença ao ingressar no Ifal no que se refere à metodologia, à qualidade dos professores e à liberdade de expressão em todos os sentidos.

- Para mim, o design de interiores tem uma grande contribuição a dar à sociedade na questão da acessibilidade, mobilidade e conforto. No design de uma casa, por exemplo, tem que se pensar em tudo antes da construção ou reforma, do gesso que se aplica, da iluminação para que tudo fique justo. É por isso que é importante o profissional de design de interiores no ambiente interno para que nada saia errado - alertou.

A estudante citou como exemplo, o acidente da ciclovia no Rio de Janeiro, ocorrido no início do mês, por falta de análise de uma série de riscos que poderia ocorrer, como o movimento das marés. Como gosta de arte e história, a graduanda de Design de Interiores pretende desenvolver pesquisas que associem o ambiente histórico à modernidade como contribuição à preservação do patrimônio cultural. “Acho bonita essa adaptação, porque existe todo um contexto que deve ser respeitado.Até porque quem chegar naquele local não vai esquecer do lado histórico que existe nele”, destacou.

Do planejamento ao acabamento da obra

Por uma questão de absorção de mercado, o curso tecnológico de Construção de Edifícios deixou de ser ofertado no Ifal e suas turmas estão nos últimos períodos. Mas se engana quem pensa que os alunos estão decepcionados com essa situação. A qual seria a razão desse ânimo?

A aluna Mariana Nobre, do sexto período, tem uma série de explicações e entre a mais importantes, está a oportunidade que teve em nível internacional na área de estrutura de edificação. No ano passado, ela foi um dos estudantes do Ifal contemplados com bolsas do programa Ciência Sem Fronteiras. Estudou por seis meses na Universidade do Porto, em Portugal e adquiriu experiência na área de construção. “Lá, eles buscam mais trabalhar com a reabilitação, enquanto que aqui no Brasil se trabalha mais com construção”. enfatizou Mariana.

Quanto ao curso de Construção de Edifícios do Ifal, a estudante disse que não tem o que reclamar. “Foi aqui que me inseri na pesquisa, apesar de pouca estrutura. Foi a oportunidade que tive e vou até o fim. Vou, depois da conclusão, entrar na área acadêmica, tentar mestrado e doutorado e seguir em frente”, declarou.

Com conhecimento também sobre a área de construção, em Portugal, Mabelle de Oliveira, 22 anos, quinto período, deu mais detalhes sobre a experiência do setor no país lusitano. “Como Portugal é um país muito velho, eles trabalham muito com a reabilitação. Há muitos edifícios abandonados nas cidades e eles querem reabilitar aqueles espaços e transformá-los em residências ou comércio. As ruas são de pedras e mármores, então eles ficam sem espaços adequados para inovar e terminam usufruindo dessas técnicas.

Junto com Mariana Nobre, Mabelle realiza pesquisa sobre a Plataforma Bim que segundo a estudante, é uma teoria que associa todos os projetos como, o arquitetônico, o hidráulico, sanitário, elétrico, tudo em conjunto. “Os profissionais da área de construção civil envolvidos no Bim atuam em uma única plataforma. No Sul e Sudeste do país é muito usado, mas no Nordeste ainda está um pouco atrasado”, destacou.

Nas disciplinas estudadas em Portugal, ela destaca uma que enfatizava muito a umidade. “Porto é uma cidade muito úmida e eles atuam com diversos tipos de umidades que eu jamais imaginaria que existissem por aqui”.

Mabelle afirmou que seu objetivo é associar o aprendizado que adquiriu no curso de Construção de Edifícios ao curso de Arquitetura que cursa em uma instituição particular de ensino. “Percebi o quanto foi importante essa base que aprendi aqui, apesar de o curso não ter a visibilidade esperada, todas essas técnicas vão ser fundamentais na minha carreira profissional ou acadêmica”, declarou a aluna.

Ela explica que o tecnólogo em Construção de Edifícios também está tão inserido na construção como o engenheiro civil. Porém, o profissional habilitado nessa área é uma versão para o mestre de obras qualificado de forma científica. O mercado ainda não fez essa associação e o resultado é que muitos concluintes estão migrando para a engenharia civil, logo que terminam o curso.

- Nosso objetivo é trabalhar com a execução da obra, desde planejamento, orçamento até o acabamento, inclusive, todo processo de financiamento e embaraços com taxas públicas – emendou a estudante.

Outro aluno de Construção de Edifícios com experiência internacional é Hugo Calheiros que estudou Engenharia Civil, durante um ano e meio na Universidade de Dakota do Norte – Estados Unidos pelo programa Ciência Sem Fonteiras. Não fiquei lá para terminar porque não consegui ser aprovado nas demais etapas, mas trago, como experiência, o aprendizado de uma nova língua, além de obter conhecimentos sobre os tipos de construção civil aplicados nos Estados Unidos. Lá eles utilizam mais a estrutura metálica”, afirmou.

Ele avalia o curso de Construção Civil no Ifal como mais voltado para a obra, mais perto da realidade.

Hugo Calheiros adquiriu conhecimento sobre a construção civil na Universidade de Dakota do Norte- EUAO trabalho com concreto é uma das pesquisas mais recorrentes no curso de Construção Civil e a estudante Priscilla dos Santos, sexto ano, também fez essa opção. Ela desenvolve um trabalho de conclusão de curso, cuja pesquisa é voltada para reciclagem de entulhos de materiais de construção civil. “Nosso curso é um divisor de água para quem quer seguir a carreira de engenheiro civil porque ele nos dar uma separação muito grande na prática. E essa base não tem preço. É um curso que tem professores de qualidade e que transmitem toda a experiência para a gente”.

Priscilla dos Santos também faz engenharia civil em instituição particular, mas antes escolheu o curso de Construção de Edifícios do Ifal, por meio do Sisu. Sobre a pesquisa, ela explica que o objetivo é fazer com que a obra auxilie o meio ambiente, ao reutilizar todo entulho em processo de trituração dos restos de construção. “Isso implica em economia financeira e sustentabilidade. Tudo começou quando eu e o professor visitamos uma obra e identificamos que a empresa usava um moinho para descartar o material e pensei de que forma poderia esse material ser reciclado para ser transformado em areia, gesso, argamassa e outros itens”, lembrou.

No laboratório, a aluna desenvolve um método que definirá a dosagem de reutilização desses materiais. “Por exemplo, estou desenvolvendo copo de resistência da argamassa para saber se com essa reutilização a argamassa tem a mesma resistência que a comercializada. Quando se faz uma argamassa ela tem toda uma norma de fabricação. É com base nessas normas que estamos testando a capacidade de resistência desse material para que no futuro, ela não possa comprometer toda a obra com rachaduras ou outros problemas.”, afirmou Priscilla Santos.