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A nova cara da docência

Eles pesquisam, inovam, são versáteis e vivem práticas didáticas em sala de aula. Alunos dos cursos de licenciaturas do Campus Maceió destacam como o Instituto Federal de Alagoas prepara um novo perfil de docentes.
por Gabriela Rodrigues - jornalista publicado: 28/04/2016 09h51 última modificação: 06/05/2016 12h14

 Muitos deles vêm de escolas públicas e são do interior de Alagoas. Eles chegam cheios de sonhos, agarram-se a oportunidades e passam a vislumbrar novos passos a cada conquista alcançada dentro do Instituto Federal de Alagoas – Ifal: Esta parece ser a realidade da maioria dos alunos de cursos superiores do Ifal Campus Maceió que, neste ano, estão na “reta final” para conclusão dos cursos de licenciatura do Instituto. Alguns já exercem e docência e são unânimes ao dizerem que as práticas de ensino vivenciadas em sala de aula fazem a diferença no aprendizado.

Nascido em Pindorama, distrito do Município de Coruripe, Helton Adelino da Sila, estudante do 8º período do curso de licenciatura em Letras, estudou em escola pública e chegou a Maceió em 2012, com as melhores expectativas sobre a nova vida no Instituto Federal. “Vim para Maceió para ter a formação adequada. Na época eu ainda trabalhava no interior, mas confiei no Ifal para investir na carreira acadêmica e não me arrependi”, enfatiza Helton. “Na época eu tinha um suporte bem limitado, mas eu já tinha muita coisa ajustada e a instituição me auxiliou de todas as formas possíveis. Estou concluindo a licenciatura em Letras porque o Ifal me permitiu fazê-lo”, conclui Helton.

O estudante revela que o suporte de assistência estudantil foi primordial para que ele permanecesse no curso. Auxílios permanência e alimentação ofertados especialmente no período inicial do curso, além do auxílio-transporte, permitiram a Helton permanecer na licenciatura.

VIVÊNCIAS

Helton Adelino, do curso de LetrasEm relação ao curso de licenciatura de Letras, Helton destaca que a matriz curricular privilegia as práticas docentes, permitindo ao aluno a interação constante com o professor e vivências em sala de aula que o tornam mais próximo da profissão. “A matriz curricular do curso é bastante focada na licenciatura, nas práticas de ensino, na vivência real em sala de aula. Não aproveitou quem não quis. Tivemos ao longo de todo o curso situações quer proporcionaram boas experiências da vivência prática do ensino”, ressalta o estudante, que já exerce a docência em escola particular. O discente destaca ainda que os professores e coordenadores do curso sempre foram muito acessíveis, permitindo aos alunos experimentar a docência da forma “mais real” possível.

Além das vivências em sala de aula, Helton foi bolsista dos programas institucionais de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid). O docente revela sentir-se “preparado para qualquer realidade que apareça em seu futuro profissional” e pretende ingressar em programas de mestrado e doutorado.

AS DIFICULDADES E O NOVO FÔLEGO

Como dificuldades ao longo do curso superior de Letras, Helton aponta a estrutura física do prédio, que em 2012 passou em reformas. À época, as reformas causaram alguns prejuízos aos alunos, assim como a falta de um espaço interdisciplinar adequado aos futuros docentes. Os problemas estruturais foram sanados, e, em especial, a criação do Laboratório Interdisciplinar de Formação de Educadores – Life foi lançado no segundo semestre de 2012 dando novo fôlego aos futuros docentes egressos das licenciaturas. A implantação do Programa atende à necessidade de ampliar o acesso dos cursos de formação docente a modernos recursos tecnológicos e de inovação educacional: são livros, recursos audiovisuais, jogos e outras ferramentas práticas para o aprendizado, nas áreas de Ciências Biológicas, Matemática, Letras e Química. O LIFE também oferece sala de estudos.

Porém uma outra dificuldade ainda permanece e é destacada por estudantes de licenciatura do Instituto: a “tradição” do Instituto Federal em ensino técnico e tecnológico, que esbarra com a qualidade e a novidade do ensino superior ofertado, recentemente, pela instituição.

“Embora a gente não tenha tradição em ensino superior, é uma qualidade reconhecida em todo o Estado. O que incomoda é a forma como o superior é visto dentro da própria instituição: é visível um tratamento diferenciado entre alunos do superior e do tecnológico, ao longo do curso, por parte da gestão”, revela Helton Adelino.

Jones enfatiza a vivência prática da língua portuguesaTambém estudante do 8º período da licenciatura em Letras, Jones Dias de Almeida, tem a mesma impressão de Helton. “Há uma tradição em tecnicismo, culturalmente arraigada à instituição. É como se houvesse entre eles (gestores e setores de atendimento aos alunos do nível superior) e nós uma parede. Se quisermos resolver algo, que recorramos às nossas coordenações. Isso precisa ser revisto e muito bem trabalhado, porque não tira de firma alguma o crédito da instituição”, avalia Jones, reforçando que as diferenças de tratamento entre alunos no nível técnico e do superior não vão se resolver “da noite para o dia”, visto que enquanto há mais de 100 anos a escola atua com ensino técnico, o ensino superior ainda é uma inovação há apenas seis anos. Os futuros docentes avaliam que o atendimento e as demandas dos estudantes do nível superior não flui “da mesma forma” como para os estudantes do curso técnico.

Kellyene Maria da Silva, estudante do 8º período da licenciatura em Matemática, também reforça a impressão sobre as diferenças de tratamento e atendimento entre alunos dos cursos técnicos e dos superiores. “É preciso uma atenção maior da parte administrativa. Como acontece com os professores, que têm uma visão diferenciada aplicada às situações de ensino, visto que estão lidando muitas vezes com ' alunos trabalhadores´que frequentam à escola à noite, têm emprego, família e outras atribuições. É preciso este tratamento diferenciado como acontece com os nossos professores, que compreendem que os alunos deste perfil geralmente têm muitas responsabilidades a conciliar'” declara a futura professora de Matemática.

Kellyene revela que muitas vezes setores de atendimento estudantil estão fechados à noite, horário em que o Instituto é frequentado por alunos do ensino superior;

EXPERIÊNCIA EM PORTUGAL

Jones Dias de Almeida, pernambucano de Garanhuns, iniciou sua formação no Ifal em 2012. Egresso de escola pública, o estudante chegou a inciar o curso superior em uma instituição particular, mas estava insatisfeito. Antes de optar pelo curso superior no Ifal, em 2012, Jones revela que não sabia que existia o nível superior no Ifal. De lá para cá, apenas oportunidades boas foram surgindo. “Sou muito privilegiado, pois desde o primeiro momento em que entrei aqui, tive oportunidades que não teria em outros lugares. Já no início do curso, Jones e a colega de curso Jaqueline Soares, sob orientação do professor Fábio José, atuaram em um projeto de extensão aprovado pelo Instituto, para interagir e trabalhar por meio da língua de sinais com pessoas surdas. Jones também foi bolsista nos projetos PIBIC e PIBID, e teve em 2014 a experiência de intercâmbio em Portugal, por meio do projeto Santander Universidades. O Ifal custeou a passagens e o seguro para a viagem e o Santander Universidades ofereceu ajuda de custo.

Jones estudou durante seis meses na Universidade do Porto e destaca que a experiência do intercâmbio enriqueceu sua formação universitária, permitindo um “crescimento de forma dinâmica e multilateral”. “Hoje percebo que trabalhar com o ensino da língua é muito mais complexo e extraordinário do que pensei quando ingressei no curso de Letras”, avalia Jones.

O futuro docente destaca que o melhor da experiência universitária ao longo de todo o curso de licenciatura foram as oportunidades de interação proporcionadas pelos professores. “Não adianta nada saber a gramática e não colocar as ideias em prática de forma coerente e coesa. Os professores são engajados, solícitos e instigam a reflexão e o debate. Fomos o tempo todo provocados”, avalia.

DESMISTIFICANDO A MATEMÁTICA

Kellyene mostra o ensino da matemática om experiências práticasKellyene Maria da Silva, nascida em Coruripe, e Danielly Palmeira, de Porto Calvo, são alunas do 8º período da licenciatura em Matemática e atualmente já exercem a docência como monitoras de colégios do Estado. As duas revelam que, vindas do interior do Estado e de escolas públicas, não tiveram uma boa base de conhecimentos no nível médio, o que dificultou o início do curso. “A formação básica não nos deu suporte para que para acompanhar o curso, fomos em busca dos pré requisitos para conseguir acompanhar. Foi um começo muito difícil”, revela Kellyene.

O Curso de Matemática prioriza o dinamismo no dia-a-dia em sala de aula, mas exige uma boa “bagagem teórica” dos estudantes. Tanto é que muitos “abandonaram” o curso ao longo da licenciatura, visto que a maioria dos estudantes acumulam atividades ao longo do dia, muitas vezes incompatíveis com o aprendizado simultâneo das matérias consideradas pré-requisitos.

As estudantes Kellyene e Danielly revelam que o curso de licenciatura do Ifal permitiu uma nova abordagem sobre o ensino da matemática, desmistificando tabus e dando um “novo fôlego” aos futuros docentes, que, utilizando-se de novas abordagens, puderam ter o contato com práticas de ensino inovadoras. “A compreensão da matemática do ponto de vista prático nos ajudou, e muito, a permanecer no curso. Há um preconceito histórico com esta disciplina, uma visão que vem desde os pais de alunos de que a matemática é difícil. Nas licenciaturas, especialmente no Ifal, aprendemos as novas formas de transmitir o conhecimento, quebrando os tabus em relação ao ensino da forma mais tradicional”, justifica Kellyene, que, no laboratório de Matemática do campus, mostrou experiências, jogos e problemas práticos utilizados para o a aprendizado da disciplina.

Danielly Palmeira revela que ao longo de toda a licenciatura os alunos são alterados sobre o desafio apresentado na docência em matemática: o de quebrar barreiras pré-definidas pela sociedade. “Trabalhamos ao longo do curso didáticas contextualizadas com práticas e experiências visuais que tornam o aprendizado mais agradável e que têm o professor como protagonista”, destaca a discente.

DESPERTANDO OS NOVOS CIENTISTAS

Aluno do 8º período de Química, Fernando Alves ingressou na licenciatura do Ifal “por acaso”: ao prestar o SISU no segundo semestre de 2012, Fernando vislumbrava à vaga na Universidade Federal de Alagoas – Ufal. No entanto, a pontuação obtida no processo seletivo não o colocou dentro das vagas da Universidade, mas se enquadrava na licenciatura do Instituto Federal. “Eu nem sabia que tinha licenciatura aqui”, revela Fernando, que ficou surpreso ao saber que os critérios de pontuação do sistema seletivo o colocavam no Ifal.

Fernando Alves alia pesquisa em Quimica com a docênciaFernando revela que sua surpresa em 2012 ainda é realidade na comunidade externa: muitos estudantes que pretendem ingressar em cursos superiores desconhecem a existência e a qualidade do ensino superior nos cursos ofertados pelo Ifal.

Desde o ingresso na instituição, as “surpresas” continuaram na vida do futuro professor de Química. Com a realização das Olimpíadas de Química apoiadas pela CAPES, nas quais estudantes das licenciaturas participam de experiências práticas com estudantes do ensino médio de escolas públicas, Fernando teve a certeza de que estava no caminho certo. “A vivência em eventos de química com escolas estaduais permite o manuseio de materiais básicos em experiências que buscam tornar a química mais atrativa aos alunos”, explica Fernando, destacando que o novo mote da docência em química e trazer a prática diária para a sala de aula.

Além das olimpíadas, a atuação em projetos como o curso de férias “Novos Talentos” levam a química aprendida no Ifal para as escolas Públicas, aprimorando o interesse pela docência nos alunos das licenciaturas e despertando o olhar dos “novos cientistas”.

Ao longo da vida acadêmica, Fernando também foi bolsista de projeto de pesquisa aplicada à química, pelo CNPQ, e pretende, durante a carreira docente, aliar pesquisa e ensino. “Já pensei em seguir a carreira científica, focar em laboratório, mas sei que é possível aliar a docência à pesquisa. A pesquisa perite um contato mais profundado com métodos e materiais que não os clássicos. E o manuseio e a visualização em experiências ampliam as possibilidades do aprender”, conclui Fernando.

A EDUCAÇÃO COMO CIÊNCIA

Loenara Evagelista defende a Educação como CienciaAssim como Fernando Alves, da Química, Leonara Evangelista veio ao Ifal sem pretensões de ingressar nas vagas do Instituto. A paraibana e estudante do 8º período de Ciências Biológicas veio para Maceió em 2007 e ingressou no Instituto em 2012, após optar primeiramente pelo ingresso na Universidade Federal, no SISU daquele ano. “Eu nem sabia que havia ensino superior, e logo na minha área, no Ifal. Pesou aquela tradição do ensino técnico. Hoje estou aqui e não me arrependo. Nunca pensei em pedir transferência. Acho uma loucura pensar em pedir transferência para outras instituições, porque o Ifal tem diferenciais que só existem aqui”, enfatiza a futura docente da área de Ciências Biológicas.

Os diferenciais aos quais Leonara se refere são os acessos aos professores, à pesquisa, a técnicas inovadoras de ensino transmitidas pelos docentes e às oportunidades de ingressos nas áreas de iniciação à docência e iniciação científica.

Leonara revela que não pretende seguir a carreira científica. A carreira docente é o foco profissional da estudante que busca, também na pesquisa, inovar em atividades pedagógicas e revelar a educação como uma ciência.

A futura professora foi bolsista de Iniciação Científica (PIBIC) e Iniciação à Docência (PIBID) e defende que o ensino da licenciatura em Ciências Biológicas não pode ser desvirtuado, ganhando “ares de bacharelado”, ao focar disciplinas puramente científicas. “Na grade curricular do nosso curso existem matérias pedagógicas e científicas, há uma separação, é como se a gente estivesse em dois cursos. E estamos falando de um curso de formação de professores. Há disciplinas que não dialogam mas que deveriam andar juntas. Senti essa dificuldade de interdisciplinaridade ao longo”, avalia.