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Pesquisas de jovens doutores do Ifal colocam o agreste alagoano no cenário internacional

por Gerônimo Vicente - jornalista publicado: 13/04/2017 12h00 última modificação: 19/04/2017 21h58

O agreste alagoano é a microrregião do estado que mais cresce economicamente e esse perfil tem atraído investimentos em áreas diversas. Arapiraca e Palmeira dos Índios se consolidaram, nos últimos anos, como cidades atrativas na atividade ocupacional, na construção civil e no setor educacional. Essa condição tem atraído jovens de todas as idades, fato que tem contribuído para o aumento da geração de empregos na região. Arapiraca, por exemplo, foi em 2015 a quarta cidade do país que mais gerou oportunidades de trabalho com carteiras assinadas para a nova geração de trabalhadores, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. E se chegada da educação superior é considerada um grande avanço para quem mora nesse espaço territorial, o que dizer de jovens, na faixa de 28 a 35 anos que detêm o título de doutorado ou de pós-doutoramento e que com suas pesquisas contribuem para o desenvolvimento econômico e sustentável da região agrestina?

O Instituto Federal de Alagoas, (Ifal) foi a primeira instituição de ensino a apostar no futuro potencial da região, ainda na condição de Escola Técnica Federal de Alagoas em 1993. Hoje, as duas unidades do instituto no agreste além de projetarem esses dois municípios em níveis nacional e internacional possuem em seus quadros funcionais, seis jovens doutores que abdicam boa parte de sua vida particular para se dedicarem a projetos que podem mudar para melhor o bem-estar da população.  

Elder Souza Claudino (31 anos), Bruno Henrique Uchôa (34 anos), Sheyla Marques (32 anos), Rafael Antonello (34 anos), todos do Campus Palmeira dos Índios; Tiago Cordeiro de Oliveira (30 anos) e Fred Augusto (32 anos) do Campus Arapiraca, são doutores e pós-doutores que levam suas trajetórias de conhecimentos aos estudantes e comunidades dessas duas cidades alagoanas e regiões circunvizinhas. A maioria nasceu e possui famílias em outros estadosmas já está adaptada com o modo de vida no agreste alagoano.

Jovens pesquisadores 

No Campus Arapiraca, a reportagem da série Jovens Doutores entrevistou o professor Fred Augusto (32 anos), graduado em Licenciatura em Química pela Universidade Federal de Alagoas desde 2008. Nesse mesmo ano, o professor ingressou no mestrado e concluiu em 2010 e, logo em seguida, iniciou o doutorado ao realizar a pesquisa sobre Síntese e Caracterização de Polímeros Conjugados para Aplicações em Dispositivos Eletroquímicos. Augusto é alagoano, nasceu na usina Cachoeira do Meirim, no bairro Benedito Bentes em Maceió. Estudou os anos iniciais e o ensino médio no município alagoano São Miguel dos Campos e somente voltou à capital ao cursar o mestrado.

- Estou no Ifal desde 2013 e antes fui professor substituto da Ufal. Sou professor de Química e leciono nos cursos técnicos de Informática e Eletrônica”, explicou.

Fred Augusto desenvolve trabalho de pesquisa sobre o Desenvolvimento de Células Fotovoltaicas, usando Corantes Naturais com o objetivo de caracterizar novos corantes a partir da natureza e que apresentem pigmentos fotossensibilizadores, extraídos de flores colhidas no nordeste brasileiro e preparar células fotovoltaicas usando esses corantes para obter uma geração de energia elétrica, via luz solar a um custo reduzido.

O docente também realiza um trabalho de extensão intitulado A Química perto de Você com a finalidade de aumentar o interesse dos estudantes  da Química mostrando-lhes como a disciplina está presente no cotidiano deles. Palestras e experimentos químicos são alguns dos recursos utilizados por Fred neste projeto.

O professor mora em Maceió e costuma ficar nos finais de semana próximo dos amigos e familiares. O lazer preferido é a pesca e caça submarina. 

Sergipano de nascimento, Tiago Cordeiro de Oliveira (30 anos) é doutor em Física da Matéria Condensada pela Universidade Federal de Sergipe. Foi na UFS que Tiago também concluiu a licenciatura em 2009 e o mestrado em 2001 em Física. No doutorado, o professor teve como linhas de pesquisa o Estudo das Propriedades Elétricas, Ópticas e Microestruturas de Materiais Cerâmicos. Ele é natural da cidade de Simão Dias-SE, mudou para Aracajú para cursar o ensino superior e chegou a Alagoas em 2010 depois da aprovação no concurso do Ifal.

“Estou no Ifal há sete anos. De início passei pelo Campus Piranhas e depois pedi remoção para o Campus Arapiraca. Tenho dedicação exclusiva, leciono disciplina de Física no curso técnico integrado ao ensino médio de Informática e Eletroeletrônica, além de lecionar na pós-graduação de Ensino de Ciências”, declarou.

Tiago Oliveira realiza trabalhos de pesquisa e extensão centrados nos temas: Cerâmicas para a Indústria Eletrônica, Divulgação Científica e Ensino de Astronomia.

No Campus Palmeira dos Índios, destaca-se também o jovem doutor, Rafael Thyago Antonello (34 anos), doutor em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Pernambuco na área de pesquisa Rede de Computadores com a tese intitulada Optimizing Finite Automata for DPI Engines (Otimização de autômatos finitos para motores DPI), obtido em 2012. O professor é graduado em Ciência da Computação pela Universidade Tiradentes e durante essa fase obteve formação generalista na área. Participou de projetos de iniciação científica e tem uma publicação em periódico sob o título Population Balance Equations for Participle Size Distribuitions in Semibath Emulsion Polymerizations, (Equações de Equilíbrio Populacional para Distribuições de Tamanho de Partícula em Polimerizações em Emulsão Semi-lote). Foi estagiário da Universidade Tiradentes e ao ser transformado em programador sênior desenvolveu uma ferramenta chamada Virtual School que lhe rendeu um artigo e a propriedade intelectual ao registrar esse software.

Ao ser selecionado nos mestrados da Universidade Federal de Campina Grande e da federal de Pernambuco que, segundo Antonello possui um centro de informática conceituado, ele desistiu da especialização e do emprego. “Na época ser selecionado para esse programa de pós-graduação parecia algo muito distante. Por isso não pensei duas vezes, pedi demissão e fui morar em Recife”, ressaltou.

O horizonte acadêmico de Rafael Antonello expandiu durante o período de mestrado, ocasião em que ele teve a chance para desenvolver habilidades na escrita científica e em Análise de Tráfegos de Redes de Computadores baseada em Técnicas Estatísticas. “Quase seis meses antes de defender minha dissertação, meus orientadores me convidaram a tentar seleção para o doutorado. Fui selecionado entre os dez primeiros colocados. Em fevereiro de 2008 defendi a dissertação e no mês seguinte já iniciava o programa de doutorado”, acrescentou.

Durante o doutorado, o professor fez parte de grupo de pesquisa ligado ao Centro de Informática da UFPE, onde participou de projetos vinculados a Ericsson do Brasil (empresa de telefonia e eletroeletrônicos). A oportunidade trouxe como benefício o convite para realizar pesquisas nos laboratórios da Ericsson em Estocolmo, na Suécia. Ainda no terceiro ano, Antonello conseguiu uma bolsa sanduíche que lhe proporcionou ficar um ano no Imagine Labs da Universidade de Ottawa, no Canadá. No último ano do processo de doutoramento, o docente passou no concurso do Ifal, sendo lotado no Campus Palmeira dos Índios em 2011. Rafael Antonello é natural de Cascavel, no Paraná. Aos 14 anos foi morar em Aracajú SE onde concluiu o ensino médio e a graduação. 

Depois da experiência internacional em pesquisas, o jovem professor teve dificuldade de se adaptar à missão do instituto, principalmente em relação à pesquisa. “Os institutos têm uma missão diferente das universidades, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento regional. Nossa missão como professor dos Ifs é muito mais ampla, pois temos que formar pessoas, não somente do ponto de vista técnico-científico, mas também cidadãos.”, exemplificou.

No Campus Palmeira dos Índios, o professor foi coordenador do curso subsequente de Redes de Computadores e, atualmente é coordenador de Pesquisa da unidade de ensino. A vida de Rafael Antonello fora do Ifal é bastante diversificada e movimentada como ele mesmo conta:

- Sou de uma personalidade bem descontraída. Pratico esportes e encaro o cuidado com o corpo como parte do meu trabalho. Já corri meia-maratona e vou à academia diariamente. Tenho hábitos alimentares bem peculiares, pois sou adepto à dieta low-carb (comer abaixo de 10 gramas de carboidratos) e pratico jejum intermitente (comer apenas quando se estar com fome) que resulta maior energia durante o dia e uma necessidade menor de sono. Li dezenas de livros sobre o assunto”, explicou.

Gostar de apreciar cervejas diferentes, cozinhar, beber vinhos e andar de motocicletas também são hobbies prediletos de Rafael Antonello. O professor explica que ao tentar demonstrar alguns hábitos pessoais tem a intenção de se apresentar como alguém com doutorado que não tenha aquele estereótipo do professor de universidade que fica preso em um laboratório e mal tempo para o convívio social. 

Falar da jovem doutora Sheyla Marques no âmbito do Ifal remete a uma referência direta a premiações. A professora tem 32 anos, mas antes dos 30 já se destacava com a medalha de bronze no Genius Olympiad, nos Estados Unidos. Como orientadora de projetos de pesquisas na área de Construção Civil proporcionou ao Ifal dois importantes espaços na mídia nacional: no programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo no quadro Jovens Inventores e no programa Como será? também  da mesma emissora.

Sheyla Marques possui graduação em Produção da Construção Civil pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Possui mestrado em Ciência em Engenharia de Materiais, com conceito 6 da Capes e doutorado na mesma área, ambos pela UFRN.

Durante o mestrado, a professora fez pesquisa com o cascalho de perfuração de poços de petróleo na fabricação de tijolos solo-cimento. “Os resultados levaram-me a aprofundar a pesquisa no doutorado onde foi possível utilizar o resíduo de perfuração como base dos tijolos e as cinzas do bagaço de cana-de-açúcar em substituição ao solo cimento. Os resultados mostraram a viabilidade do produto e possibilitou conquistas na área”, explicou.

As pesquisas com tijolos solo cimento, utilizando bagaços de cana-de-açúcar, o resíduo de perfuração e as placas com uso de borracha de pneus inservíveis conquistaram premiações e títulos entre eles: aprovação de três artigos na sétima Semana Internacional de Engenharia Civil, em Atenas Grécia; participação no programa Como Será?; publicação do livro Ecological Soil-ciment Bricks from Waste Materials pela editora Springer Briefs in Applied Sciencs and Tecnology, sob a autoria dos professores Wilson Acchar e Sheyla Marques; comenda Graciliano Ramos da Câmara da cidade de Palmeira dos Índios; finalista do prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional do Ministério da Integração Nacional; Prêmio Votorantim Cimentos de Inovação e Sustentabilidade; medalha de bronze na Genius Olympiad Internacional High School Project Fair ou Environment e o Prêmio Jovens Inventores do programa Caldeirão do Huck que deu visibilidade a um dos projetos de pesquisa e convite de vários eventos.

O projeto Tijolo Solo-Cimento Fabricado com Resíduo de Perfuração recebeu patente do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual) em 2013.

A professora, atualmente, é coordenadora do curso de Engenharia Civil do Campus Palmeira dos Índios e leciona as disciplinas de Materiais de Construção I e II e Empreendedorismo e Inovação. Ao se referir à vida pessoal, Sheyla Marques conta que é natural de Natal-RN, mas morou na cidade vizinha de São Gonçalo do Amarante. “Passei minha vida escolar em Natal e sempre fui incentivada pelos meus pais que são minha base de exemplo. Sabia das dificuldades que meus pais enfrentavam para manter meus estudos numa escola privada e o processo de seleção do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, na época Cefet-RN,  era uma oportunidade de estudar em uma instituição de qualidade e sem o custo de uma mensalidade. Fui aprovada para o curso de Edificações que ao ser concluído passei a cursar Tecnologia em Construção de Edifícios. Ao final desta etapa fui selecionada como professor substituto do IFRN – Campus Mossoró, fato que me motivou a ingressar no mestrado”, declarou.

A aprovação no concurso do Instituto Federal de Alagoas se deu em 2010, mas com detalhes: Sheyla Marques também havia sido aprovada nos institutos federais de Pernambuco e Ceará, porém foi do solo alagoano que partiu a primeira convocação o que, segundo ela, encaixou-se dentro dos projetos de pesquisa, pois havia estudado as potencialidades do Estado devido a larga produção de cana-de-açúcar. “Fui muito bem recebida pela família Ifal e aqui tive conquistas e espaço para desenvolver trabalho no tripé ensino, pesquisa e extensão. Amo meu trabalho, a sala de aula, meus alunos e o universo da pesquisa me encanta profundamente”, acrescentou.

Sobre a vida extra Ifal, a jovem professora contou que passa a semana em atividades no campus. “Moro em Palmeira dos Índios e, praticamente vivo no campus. Aos finais de semana, participo de corridas de ruas e já tenho algumas medalhas para a coleção. Pelo menos uma vez ao mês vou matar um pouco da saudade dos meus pais e irmã no Rio Grande do Norte. A rotina em Palmeira dos Índios é Ifal e Ifal”, concluiu.

Elder de Souza Claudino, 31 anos tem graduação, mestrado e doutorado em Física pela Universidade Federal de Alagoas e pós-doutorado pela UFPE. Ele ingressou na Ufal em 2003 e fez opção pelo bacharelado em Física. Em 2007, ingressou no mestrado no programa de pós-graduação em Física da Matéria Condensada e concluiu dois anos depois com o trabalho Sistemas Dinâmicos não-Lineares com Retardo e Aplicações em Biologia. Entrou em 2009 no doutorado na área de Física Teórica e Computacional e concluiu em fevereiro de 2013.Logo depois iniciou mais uma etapa acadêmica agora no pós-doutoramento da UFPE em pós-graduação de Física de reconhecida excelência com conceito 6 pela Capes, segundo afirmou.

Claudino fez concurso para o Instituto Federal da Paraíba em 2014, enquanto cursava o pós-doutorado. Foi lotado no Campus Souza, no sertão paraibano. Conseguiu chegar ao Ifal, por meio de redistribuição com contrapartida realizada com um professor de Física que ensinava no Ifal e residia na Paraíba. Para ele, a permuta foi de suma importância já que cada um dos servidores pôde estar mais próximo de seus familiares.

Atualmente, o professor leciona Física nos cursos superior de Engenharia Civil e técnico integrado em Eletrotécnica do qual é coordenador. Ele realiza orientação em projeto que objetiva analisar circuitos elétricos no âmbito de sistemas dinâmicos fazendo uma abordagem analítica e computacional. “Com isto, o aluno poderá ter uma visão diferenciada acerca de um tema ou assunto bastante visto no decorrer do seu curso e ainda obter conhecimento de ferramentas no campo da informática”, explicou.

As atividades fora da atividade docente se concentram em tarefas relativas à igreja pelo fato de ser evangélico. “Vou três vezes por semana ao culto. Sou professor da Escola Bíblica que funciona aos sábados. Tenho uma família abençoada, minha esposa eu e minhas filhas”, enfatizou. 

Diferentemente das áreas de Exatas e Ciência da Computação, a reportagem encontrou o professor Bruno Henrique Uchôa, do Campus Palmeira dos Índios. Aos 34 anos, o jovem docente é doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestre na mesma área pela Universidade Federal da Paraíba. Ele nasceu em Paulo Afonso-BA e morou no Recife. Chegou ao Ifal quando cursava o doutorado e antes disso não tinha vínculo com Alagoas.

“Na graduação cursei, primeiramente, Desenho Industrial na UFPE e na metade do curso entrei, concomitantemente, no curso de Teologia por causa da grande exigência e a forma de se escrever artigos e textos maiores como dissertações e teses. Eu lia bastante, mas além de me preocupar em entender o conteúdo do que lia, eu sempre prestava atenção na estrutura do texto e a forma como os autores argumentavam e defendiam seus textos. Isto me influenciou bastante”, destacou o professor.

“Na graduação cursei, primeiramente, Desenho Industrial, na UFPE e durante a metade do curso entrei, concomitantemente, no curso de Teologia por causa da grande exigência e a forma de se escrever artigos e textos maiores como dissertações e teses. Eu lia bastante, mas além de me preocupar em entender o conteúdo do que lia, eu sempre prestava atenção na estrutura do texto e a forma como os autores argumentavam e defendiam seus textos. Isto me influenciou bastante”, destacou o professor.

Foi cursando Teologia que Bruno Uchôa se interessou pela Filosofia. Fez o doutorado, simultâneo às atividades no Ifal, fato que dificultou a produção da tese, mas, segundo ele, organizou-se o máximo possível para dar conta da demanda na instituição de ensino e escrever a tese. É professor de Filosofia nos cursos de Edificações, Informação e Eletrotécnica, além de orientador em pesquisa Pibic (programa de bolsas de iniciação científica) nas temáticas de Noções de Teoria Econômica e Investimentos e em Filosofia Política.

Quanto ao cotidiano fora do Ifal, Bruno dedica boa parte do tempo dedicando-se à leitura relacionada à pesquisa. Vai aos cultos no domingo pela manhã e tem como lazer a prática da musculação que faz de segunda a sábado, além de estudos particulares sobre nutrição, fisiologia, bioquímica e biomecânica para obter melhores resultados na prática da musculação.